Água contaminada mata 5 mil crianças por dia
Água
e petróleo, a mesma moeda
Por Amyra El Khalili* traduzido para o Português
A
América Latina vive hoje uma guerra intestina, mas silenciosa, em pequenos
focos espalhados pelo continente, mas que podem eclodir a qualquer momento num
emaranhado de ações e convulsões sociais se não estivermos preparados para
novos enfrentamentos econômicos e políticos.
As
águas da América Latina de hoje podem ser, no futuro próximo, objeto de
disputas sangrentas, como é hoje o petróleo do Oriente Médio.
Se
o Oriente Médio sofre por ter seus recursos naturais espoliados, a América
Latina sofre com a servidão ao sistema financeiro internacional. Sofre com a
usura das altas taxas de juros, a especulação financeira, o endividamento e
é vitimada pela corrupção endêmica.
A
América Latina detém a maior biodiversidade do planeta, as maiores reservas
de água doce do mundo. É rica em minérios, abriga as maiores florestas
tropicais, extensos litorais paradisíacos, solo e climas diversificados, que
garantem o vigor da produção agropecuária nos 365 dias do ano.
Construímos
na América Latina a nossa cultura americana árabe, agregando valor à
cultura miscigenada dos povos latino-americanos. O carisma, a vontade de
trabalhar, a diplomacia e nossa maneira de ser deram a nós, árabes e
descendentes, uma vantagem comparativa para negociar e realizar parcerias.
É
esse exemplo de integração que nos dá a certeza de que só com o apoio, a
união dos vários países, árabes em especial, nos investimentos, parcerias,
joint-ventures é que sairemos da servidão financeira que nos é
imposta por um modelo econômico degradador e desumano pelos países ditos
desenvolvidos.
Não
faz sentido que os recursos obtidos pela exploração do petróleo árabe
funcionem como lastro para o sistema financeiro que hoje os bombardeia.
Contra
o capital excludente somente um novo capital inclusivo.
Contra
uma globalização que tenta extorquir nossos recursos naturais e estratégicos,
somente uma nova globalização cultural, inter-racial e inter-religiosa.
A América Latina possui todos
os recursos naturais estratégicos que os países desenvolvidos necessitam
para produzir bens de consumo na indústria, comércio e serviços. O Brasil
tem posição estratégica na América Latina por sua dimensão continental,
miscigenação e por concentrar o sistema financeiro do continente.
O
mundo árabe tem sua economia centrada nos recursos energéticos não renováveis,
um “privilégio” pago com milhares e milhares de vidas. Faz-se estratégico
e vital migrar para a energia renovável, com todo conhecimento e
tecnologia acumulados ao longo de décadas por aqueles produtores de petróleo.
Por
não ter água o mundo árabe não consegue produzir o que consome, nem gerar
excedentes para exportação. Por isso é franco comprador de mercadorias in
natura e industrializadas.
Infelizmente,
pouco exportamos em linha reta para o mundo árabe, pois as rotas de
comercializara
Temos
fortes laços culturais que, se aliados à capacidade e desenvolvimento
de tecnologias, poderiam se traduzir em grandes operações de trocas entre os
países árabes com um intercâmbio e, conseqüentemente, aquecer as
economias árabe e latino-americanas.
Os
fundos islâmicos não aplicam em juros, mas podem muito bem financiar a produção
de longo prazo, desde que tenhamos também nesses contratos, a contrapartida
dos investimentos de base em educação, saúde, agricultura, ciência,
cultura, cooperativas de produção, entre outros.
Estudar
uma estratégia para as rotas marítimas e aéreas é imprescindível para que
as relações entre o Oriente Médio e América Latina se fortaleçam e
intensifiquem, com ganhos para os dois lados
No
âmbito nacional e continental, é vital que parcerias e acordos garantam a
preservação e o uso público e social das bacias hidrográficas e águas
subterrâneas transfronteiriç
Outro
aspecto importante é aprofundar o estudo crítico das questões intrínsecas
do Protocolo de Kyoto, recomendando cautela com negócios nos mecanismos de
desenvolvimento limpo. O estabelecimento do mercado de carbono, através de créditos
compensatórios, simplesmente reproduz o modelo econômico que é alvo de
nossas críticas.
A
alternativa é a estruturação de uma rede de investimentos, parcerias e
comercialização
Para
debater esta questão na América Latina criamos o Projeto RECOs – Redes de
Cooperação Comunitária, que têm como objetivos o intercâmbio de
experiências, a promoção e fomento da produção de bens e serviços
das comunidades regionais. O projeto atende às reivindicações da Agenda 21
– Pense Globalmente e Aja Localmente, com a implantação da
responsabilidade social empresarial, comércio justo e sustentabilidade em
diversos programas educacionais.
Estes são, em resumo, os principais pontos do pronunciamento elaborado por Amyra El Khalili e Eduardo Felício Elias e encaminhado por Claude Fahd Hajjar ao Primeiro Congresso Fearab América - Liga de Estados Árabes, realizado no Cairo, Egito, entre 10 e 12 de julho deste ano. Esperamos que sirvam de ponto de partida para um amplo debate sobre o futuro deste nosso planeta.
Fontes:
Entrevista
por Sandro C. Cardelíquio com Amyra El Khalili - Água e Petróleo, a mesma
moeda - para a Revista Eco Spy - Ano 2, n. 07 - Novembro/2006. Editora Risc. www.ecospy.com.